Demanda alta reduz retorno e desafia gestor de fundo de crédito

Demanda alta reduz retorno e desafia gestor de fundo de crédito

Por Silvia Rosa | De São Paulo

Designed by mindandi / Freepik
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A demanda elevada por papéis de crédito privado e a queda no volume de emissões de debêntures neste início de ano fizeram com que as últimas ofertas fossem bastante disputadas por investidores. Se por um lado esse cenário levou a uma redução do custo de captação para as empresas, por outro impôs um desafio aos gestores na tarefa de preservar a rentabilidade dos fundos de crédito privado – segmento que cresceu no último ano como alternativa de diversificação diante da queda do juro para a mínima histórica.

Com demanda de quatro vezes a oferta, a Petrobras emitiu R$ 3,6 bilhões em debêntures – R$ 600 milhões a mais que o volume oferecido inicialmente -, pagando menos que os títulos públicos atrelados à inflação (NTN-B) nas séries de debêntures incentivadas, que contam com isenção fiscal.

A Iochpe também conseguiu reduzir o custo da emissão recente de R$ 450 milhões de debêntures em pelo menos 0,50 ponto percentual. A taxa dos títulos da primeira série, com prazo de cinco anos, caiu de 1,25% para 0,75% mais a variação do CDI. Já o retorno das debêntures da segunda série, de sete anos, saiu a 0,95% mais variação do CDI, abaixo do retorno previsto de 1,50%.

As emissões de dívida no mercado local têm crescido a uma velocidade inferior ao dos fundos de crédito privado e provocado uma compressão das taxas nos mercados primários e secundários de debêntures, afirma Fausto Silva Filho, sócio e gestor de renda fixa da XP Asset Management. “Por causa desse desbalanceamento entre oferta e demanda, os preços de algumas ofertas de debêntures na nossa visão não estão adequados ao risco”, diz.

Com a busca por retornos maiores, o patrimônio dos fundos de crédito privado livre cresceu 19% nos últimos 12 meses encerrados em janeiro, segundo a Anbima, chegando a R$ 106,7 bilhões. Os fundos de investimento em geral também têm buscado papéis de crédito privado para aumentar o retorno dos portfólios. A participação desses ativos nas carteiras chegou a 17% em dezembro, segundo a Anbima, ante 16,4% em dezembro de 2017.

Na visão de Eduardo Freitas, responsável por emissões de dívidas do Citi, esse cenário tende a perdurar enquanto não houver um rebalanceamento e o volume de ofertas se ajustar à procura. Só a tranche de R$ 1 bilhão da oferta de debêntures da Petrobras distribuída para investidores institucionais teve uma demanda de sete vezes o valor da oferta, ressalta. E, com isso, o custo de captação no mercado local tem ficado mais atrativo que no mercado de dívida externa.

Para manter o retorno dos fundos, os gestores têm recorrido a pelo menos duas saídas: buscar títulos oferecidos por emissores novos ou com prazos maiores – que pagam mais por trazer mais risco – ou fechar as carteiras para novos aportes.

Um exemplo do aumento da procura por papéis de prazo mais longo foi a oferta de debêntures da Lojas Americanas, com prazo de sete anos e retorno de 115,70% do CDI. Dada a demanda forte, a empresa, que pretendia captar R$ 650 milhões, acabou emitindo R$ 1 bilhão.

A Devant Asset tem buscado tanto ampliar a exposição em papéis com prazo mais longo como olhado debêntures de novos emissores, que costumam pagar um prêmio maior. “Há empresas com boa qualidade de crédito como o laboratório de diagnósticos Instituto Hermes Pardini, que fez a segunda emissão de debêntures no ano passado”, diz Bruno Eiras, CEO da Devant Asset.

Outra opção tem sido aumentar a alocação em títulos bancários. A gestora JGP comprou letras financeiras perpétuas do Bradesco na oferta primária no fim do ano passado e teve ganho de 402% do CDI com a valorização do ativo no mercado secundário em novembro.

A emissão de mais de R$ 2 bilhões do Bradesco saiu com uma taxa equivalente a 120% da Selic, mas com a forte demanda o papel chegou a ser negociado a 114% do CDI no mercado secundário, o que trouxe uma valorização para o ativo.

Os bancos têm aproveitado o momento para retomar as captações de olho na expansão da carteira de crédito e no alongamento da dívida.

O Daycoval está com uma emissão de R$ 1 bilhão em letras financeiras no mercado, que será dividida em quatro séries, sendo a mais longa de cinco anos, prazo nunca testado pelo banco em oferta públicas. “Tanto os bancos de varejo como os de montadoras estão voltando a emitir letras financeiras”, diz Eiras, da Devant.

Só neste ano, os bancos RCI (das montadoras Nissan e Renault), Mercedes-Benz e GMAC emitiram letras financeiras que somaram R$ 1,3 bilhão. O Banco Toyota também está com uma oferta em andamento.

As financeiras também voltaram a captar. A Omni fez uma ofertas de R$ 150 milhões em letras financeiras com prazo de dois anos. A financeira da Porto Seguro está com uma emissão de letras financeiras em andamento em que pretende captar entre R$ 300 milhões a R$ 500 milhões.

Segundo os gestores, apesar da queda de 67% das emissões de debêntures em janeiro na comparação com o mesmo período do ano passado, o volume de operações deve ser melhor em fevereiro. “Há uma retomada das ofertas de debêntures e de letras financeiras por parte de bancos, o que deve ajudar a equilibrar a oferta e a demanda por papéis de crédito privado”, afirma Eiras.
O gestor da Devant já nota uma melhora da liquidez também no mercado secundário. “Nos últimos seis meses, o mercado secundário estava mais comprador que vendedor, mas essa liquidez melhorou, o que permitiu o surgimento de boas oportunidades de compra de papéis”, diz Eiras.

A JGP também tem recorrido a uma gestão mais ativa das carteiras de crédito para aproveitar as oportunidades no mercado secundário. “Estamos buscando ganhos mais com o giro das posições”, conta Alexandre Muller, gestor de crédito da JGP.

Outra opção, segundo os gestores, é fechar os fundos para novas alocações. A JGP, por exemplo, abriu o fundo JGP Corporate para nova captação logo após a eleição em 2018 e fechou o portfólio para aportes no mesmo dia, após levantar R$ 200 milhões.

A XP também abriu o fundo XP Corporate para captação em dezembro e fechou o portfólio em duas semanas após captar R$ 150 milhões. “Olhamos sempre a fila de ofertas para fazer a abertura dos fundos de crédito estruturado para captação”, diz Fausto Filho.

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